Atendo muitos pais no consultório sofrendo porque não querem
que os seus filhos tenham nenhum tipo de decepção. Na tentativa de serem super-pais
se desdobram para que os seus filhotes não sofram. Pena que eles não sabem que
é fundamental existirem frustrações, para que eles saibam que a vida é feita de
momentos bons e ruins. Aprenderem que os momentos ruins passam também. Os pais devem
perceber que também atendo muitas crianças e jovens encaminhados por escolas,
pais e médicos em emergências (por se cortarem, se baterem, tentativas de
suicídio, abuso de álcool, drogas etc.) porque não sabem lidar com a
frustração.
Por exemplo, seu filho, ainda bebê, chora porque não pode
brincar com o controle remoto da TV. Sempre que o responsável diz não numa situação
com essa, o bebê aprende que deve respeitar seus pais e, que aquela tristeza
diante da frustração passa. Quando um pouquinho maior, o responsável diz não e
ele chora de soluçar, faz birra, muitas das vezes desaba de cansaço de tanto
chorar. Ele acorda novinho em folha, ele aprende que aquele momento ruim passa.
Agora, se os pais não permitirem que seus filhos aprendam
essa lição da vida, de que existem momentos ruins e que essa dor é passageira,
quando maiores, e problemas como esse ocorrerem, vão achar que a vida acabou e
a dor será muito maior, pensarão que não terá fim. Por mais que os pais digam
que enquanto forem vivos protegerão sua prole, isso não será verdade, quando
eles forem adultos existirão muitos momentos que os pais não poderão
interferir.
Certos comportamentos são decorrentes dessa baixa tolerância
à frustração. Atendo crianças e jovens que estão descontentes com a sua
aparência, e esse problema passa a tomar a vida dela. Ou ainda, querem ser
aceitos por um grupo ou namorar uma determinada pessoa, e ao receberem a
negativa sofrem. Todos nós passamos por isso, mas a diferença que quando já
tivemos frustrações na Infância, sabemos que o tempo é um bom remédio para
aliviar esse sofrimento. Quando o indivíduo nunca sentiu dor ou angústia,
diante de uma decepção, acredita-se que aquele sofrimento é muito assustador e é
eterno. Essa sensação de dor e a crença de que nunca irá acabar leva a
comportamentos depressivos, impulsivos ou até ao uso de álcool ou drogas na
tentativa de aliviar a sensação ruim.
Deixe o seu filho se decepcionar ainda na Infância com coisas
normais da vida. Não ter o presente que queria em um passeio no shopping, não comprar
tudo que deseja durante uma viagem, não dormir na casa de um amigo ou não trazer
um amigo, em dia inconveniente para a família, não ir à festa que todos vão,
devem ser experiências de vida, são situações de negativa normais na vida de
todos. Ele, com o tempo, vai aprender a conviver com esse “não”, e até entender
que aquela negativa teve motivos para acontecer.
Faça bem ao seu filho, deixe se decepcionar com as coisas
comuns na idade, enquanto pode aprender no seu colo.