quarta-feira, 7 de março de 2018

Você conhece a geração " SNOWFLAKE"?

Artigo publicado na Gazeta do Povo em 5 de março, 2018 no blog do Rodrigo Constantino e escrito pelo psiquiatra Gustavo Teixeira .


Pais que superprotegem e que não dão limites a seus filhos são o pano de fundo para o desenvolvimento da Geração “Snowflake”, ou floco de neve como os americanos gostam de descrever. Os filhos são descritos como seres únicos, frágeis e perfeitos, o que justificaria esse excesso de zelo por parte dos pais para que suas autoestimas não sejam machucadas.

​Os filhos “flocos de neve” podem tudo, pois são especiais demais para ouvir um “não”, são sensíveis, se ofendem por qualquer coisa e logicamente há de se ter cuidado redobrado para não machucar seus sentimentos, pois não queremos que fiquem tristes e deprimidos.

Nesse alicerce assombroso, temos a versão tupiniquim dos “snowflakes”, a Geração Mimimi, que nasce com pais que acham um absurdo a escola ranquear os alunos por desempenho acadêmico ou premiar apenas os três primeiros colocados no campeonato de futsal, exigindo que o filho receba a medalha de vigésimo oitavo colocado com a mesma pompa do campeão.

​A infância e adolescência é uma fase de proteção e cuidado, mas há de se diferenciar cuidado com superproteção. Enriquecer a vida e o ambiente em que nossos filhos vivem é muito importante, mesmo que tenham que se machucar, se frustrar, ficar tristes e sofrer.
Não há como manter os filhos em uma bolha irracional objetivando que sejam poupados dos perigos inerentes da vida em sociedade.

Para alguns pais, o excesso de zelo é amor, mas também há de se evitar a confusão entre amor e culpa. Excesso de trabalho e falta de tempo com os filhos têm servido de pano de fundo para uma preocupação frenética com segurança. A incapacidade de criar oportunidades de convívio e formar vínculos afetivos com a prole abre caminho para ceder a todos os desejos da criança a fim de sanar sua culpa pela incapacidade e incompetência de exercer a paternidade e maternidade.

Com o decorrer do tempo os problemas dessa superproteção se tornam mais evidentes, pois o encarceramento social e emocional imposto pelos pais acaba prejudicando muito a socialização ao impedir a exposição dos filhos aos perigos da vida.

Segundo a educadora Julie Lythcott-Haims, ex-reitora para calouros na Universidade Stanford, vivemos em um mundo onde os “pais helicóptero” temem o futuro dos filhos em um mundo perigoso, violento e com a economia ruim. Então eles se posicionam no sentido da superproteção: “sempre estaremos aqui para você, meu filho, consertando tudo e sendo sua rede de segurança emocional e financeira eterna”.

Desta forma, estamos criando uma geração de egocêntricos, que acreditam que são especiais e que podem tudo. Daí eles crescem achando que merecem ser premiados pelo simples fato de existirem, não aprendem conceitos de ética, respeito, disciplina e de que para se conquistar alguma coisa na vida é preciso lutar e trabalhar muito! Se tornam “soft”, fracos, raquíticos e vulneráveis como um floco de neve.

Quando percebem que o mundo real não é aquele ensinado pelo seus pais, já é tarde demais. Agora não basta apenas pedir para o papai ou para a mamãe para terem seus desejos atendidos e como não aprenderam a lidar com a frustração, nem aprenderam a lutar para conquistar algo na vida, resta apenas reclamar e culpabilizar a sociedade ou o universo pelo seu fracasso pessoal, profissional e emocional. Então vamos deprimir, pessoal!

Frente a esse padrão problemático de criação parental fica fácil de entender que a Geração Mimimi agrega um número imenso de jovens do grupo “nem-nem” (nem estuda e nem trabalha). Eis 2 exemplos clássicos:

Exemplo 1: Luciano, 27 anos de idade, mora com os pais, não trabalha, não estuda, fuma maconha o dia inteiro e o hobby principal é postar críticas nas redes sociais contra o governo golpista que não faz nada pela segurança pública para conter o avanço da criminalidade, a violência urbana e o tráfico na favela. Ah, e última que escutei semana passada: a culpa é dessa sociedade conservadora e retrógrada que não aceita descriminalizar a maconha, sendo esse o motivo principal da existência do tráfico de drogas.

O floco de neve não percebe que financia o crime organizado, que retroalimenta a violência urbana. Mas isso pouco importa, pois é o orgulho do papai que tem o filho “inteligente e politizado”. Ah, papai não se importa que fume maconha em casa, pois é mais seguro que o faça dentro da fortaleza doméstica, afinal, a violência lá fora é grande e a maconha é substância natural, inofensiva.

Exemplo 2: Daniela, 22 anos de idade, mora com os pais, estuda em faculdade particular e reclama que não consegue ficar em estágios por mais de 6 meses. Tem dificuldade em trabalhar em equipe, não aceita crítica, não aceita ordens, se julga competente, mas considera que é “perseguida” no estágio, pois é incompreendida por ser mais inteligente e melhor capacitada que todos os colegas na empresa.

Daniela atrasa todos os trabalhos, comete muitos erros e normalmente abandona os estágios antes de ser mandada embora: “Muita pressão, não sou respeitada e não posso me estressar, quero qualidade de vida”.

Isso mesmo!!! 22 anos de idade e quer “qualidade de vida”, trabalhar para que? Vamos para o colinho de papai e de mamãe, por favor!

​Claro que a culpa disso tudo não é apenas do Luciano ou da Daniela. Está claro que esses padrões de comportamento são as únicas possibilidades esperadas e eles são reflexos de decisões e escolhas malfeitas, embasadas em um alicerce pobre e rudimentar construído por seus pais durante anos.

​No caso da Daniela, ela é a soma de tudo que aprendeu na vida. Seus pais nunca deram limite, nunca cobraram nada da filha e a superprotegeram para que não sofresse nesse mundo cruel e machista!

Olha, a conta chega um dia, papai e mamãe... não se pode colocar um filho sobre um pedestal, dentro de uma redoma de vidro e achar que a filhota vai se dar bem na vida. Desta forma você não está oferecendo ferramentas e habilidades para que ela crie asas e voe. Ao invés de protegê-la, estás a condenar sua filha à infelicidade!

​A vida é dura e tudo é uma questão de merecimento.  Para se conquistar algo tem que lutar, trabalhar muito. Com vinte e poucos anos de idade é preciso ter sangue nos olhos e olhos de tigre para vencer profissionalmente e emocionalmente.

Infelizmente, os jovens da Geração Mimimi são grandes vítimas da incompetência e da arrogância de pais inábeis que desde muito cedo cerceiam o direito e a possibilidade de desenvolvimento de seus filhos.
Portanto, é preciso humildade para aceitar que não é possível controlar as variáveis universais da vida. Sofrer não é um sentimento bom, mas é preciso sofrer para que exista aprendizagem e crescimento. Parcimônia e equilíbrio na hora de educar os filhos é fundamental para que eles desenvolvam asas para voar... sem mimimi!

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